O lado bundas e pechinchas do Egito

Eu em uma rua no centro histórico do Cairo, à noite. Estou diante de uma loja de luminárias, que estão acesas.

No centro histórico do Cairo. Belíssimas luminárias a venda.

Quando formalizei minha viagem ao Egito, tal qual cachorro alucinado com o anúncio do passeio à rua, comecei a contar a grande novidade para algumas pessoas da minha convivência (próxima ou distante). Alguns disseram que eu era maluca de ir sozinha diante da confusão política de lá, outros disseram que eu era maluca mesmo indo com excursão, outros expressaram sua felicidade ao saber da novidade. Houve também quem dissesse que já havia ido a esse país e adorado.

E houve quem me alertasse para um possível acontecimento: “Cuidado lá, que os egípcios passam a mão nas bundas das mulheres.” Foi o que me falaram aqui na Espanha.

“Ah, peralá!”, disse eu. Acho muito difícil isso acontecer. Eu vou com um grupo de excursão. Não consigo sequer imaginar essa cena. Vai ser o quê? Ciranda de passada de mão nas bundas das mulheres do grupo? Sim, porque certamente vamos estar todos da excursão juntos sempre e é óbvio que haverá mais mulheres além de mim.”

E lá fui eu, sem me preocupar nem um milímetro cúbico do meu ser com isso.

Como contei em outro post, cheguei ao meu primeiro destino egípcio, Assuã, tarde da noite. No dia seguinte, de manhã, todos deveríamos estar prontos para o primeiro passeio. Um calor semi-infernal já cedo e eu pensei: “Esta tarde promete.” E de fato cumpriu. Depois do meio-dia, fazia bastante calor. E põe bastante nisso! E eu fiquei feliz de ter escolhido um short e uma blusa bem fininha para a visita aos pontos turísticos.

Eu diante do Templo do Lúxor.

No primeiro dia de passeio no Egito. Dando graças a Deus, Horus e Allah por ter me vestido com esse short e essa blusa bem fininha.

E sabem o que mais? Nada de passada de mão. Eu nem estava me lembrando disso, na verdade. Só fui me lembrar quando, no final do dia, escutei uma das minhas colegas de excursão, adolescente, discutindo com o pai, no quarto deles: “Papai, amanhã eu vou sim de short! Não tem problema nenhum! Adriana foi hoje e não aconteceu nada!” Mas o pai parecia irredutível. No dia seguinte, de manhã, a menina estava de calça comprida outra vez.

Bom, olhar, eles olham. Parece que nunca viram mulher na vida e desconfio que a questão é bem essa mesmo. Não sei o que se passa nas cabeças deles. Por terem uma cultura que eu julgo machista, provavelmente pensam que as mulheres que andam por ali de short arderão no mármore do inferno. Mas, como diria um famoso filósofo: “Todo mundo pode fazer o que quiser, só não me encham o saco.” E era isso mesmo, para mim. Que olhem, que pensem o que quiserem. Eu não sou dali mesmo. E, se dissessem alguma coisa em árabe, eu não ia entender. Eu também posso pensar um monte de coisas deles, não é?

Mas a verdade é que não passei por nenhuma situação constrangedora ou abusiva. Alguns fatos aconteceram, mas não me pareceram ruins. Um dos garçons do navio, por exemplo, no último jantar me disse: “Hoje é o seu último dia aqui, não é? Amanhã eu vou chorar.” Outra coisa que aconteceu foi com um rapaz na rua que, enquanto esperava o sinal fechar para atravessar, pisou no meu pé sem querer, pois eu estava atrás dele e ele deu uma passo para trás e meu pé estava ali. Quando se virou para pedir desculpas, disse: “You are very beautiful. Your boyfriend is a very lucky man”, sem saber nada da minha vida. Mas o que eu achei mais curioso foi o que aconteceu no aeroporto de Assuã para o Cairo.

Estávamos o grupo e o guia, esperando o voo. Como ainda tinha tempo, aproveitei para ir ao toalete. Fui. Dentro estava uma senhora que era praticamente a dona do banheiro. No Egito me pareceu muito comum haver mulheres, nos banheiros públicos, que recepcionam a pessoa. Essa mulher específica me cumprimentou, me deu papel higiênico, me levou até o cubículo onde fica o vaso sanitário, me limpou… Mentira! Eu mesma me limpei. Era só o que faltava.

Depois, quando saí do cubículo, ela me conduziu até a pia, abriu a torneira e me deu papel toalha. Eu já estava vendo aonde ela queria chegar.

Veio com um papo de que o banheiro estava limpo e bem cuidado… E eu “Sim, sim, está.” E me estendeu a mão. Eu lhe cumprimentei e fui embora. Mentira. Eu lhe dei um dinheiro e ela me agradeceu. Eu bem era capaz de ter cumprimentado a tal senhora mesmo, do jeito que, às vezes, sou distraída. Uma vez, quando eu era menor, eu estava saindo do colégio e um senhor mendigo se aproximou de mim e me estendeu a mão. E não é que eu já estava pronta para cumprimentar o cara? E estava fazendo o maior esforço para tentar me lembrar quem era aquele homem, pois, na minha cabeça, com certeza era alguém que me conhecia e de quem eu não estava me lembrando. Só depois caiu a ficha que ele estava era pedindo dinheiro. Ah, só eu mesmo!

Pois bem, voltando ao banheiro do aeroporto de Assuã, a senhora pegou o dinheiro, agradeceu e então disse: “Um amigo meu, que trabalha aqui, achou você muito bonita, uma rainha do Nilo. Ele gostaria de tirar uma foto com você. É possível?” E lá estava o cara fora do banheiro. Eu disse que sim, era possível. O homem, então, pegou um celular e tiramos uma selfie. Ele achou que não tinha ficado boa e tiramos outra. E continuou ruim, pois era um celular bem antigo. Mas, enfim, ele ficou feliz, agradeceu, e eu fui ao encontro do grupo da viagem. Cada coisa que me acontece. Então tá, né? Devo ser um escândalo mesmo.

Mas, curioso, me haviam avisado tanto que iam passar a mão e tal e, na verdade, isso não aconteceu. Não que eu quisesse, calma aí! Mas interessante notar que as pessoas foram bem simpáticas, na verdade.

O centro histórico do Cairo. Umas lojas e algumas pessoas.

Movimentado centro histórico do Cairo.

No último dia de excursão, o tour foi pelo centro histórico do Cairo, à tarde. O guia nos deixou em um dos calçadões que, aliás, me lembrou muito o SAARA (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, no Rio, claro) e disse que, como o objetivo do passeio era fazer compras (eu não comprei nada), ele não iria com a gente e ficaria em um bar, tomando um chá com menta para, depois do passeio, nos encontrarmos. Ok. Então fomos.

O grupo, nesta altura da viagem, éramos uma família de quatro pessoas e eu. A família era composta de uma moça, um senhor e dois filhos adolescentes, sendo uma menina e um menino. Passavam de loja em loja, ávidos por encontrar souvenirs e seguir as recomendações de pechinchamento (acabei de inventar a palavra) dadas pelo nosso guia. E eu ia seguindo a tal família e passeando. Algumas vezes eu ficava um pouco para trás e percebia que o pai da família e o filho ficavam apreensivos, sempre dando um jeito de juntar todas nós na frente deles. “Que simpático”, pensei, “Eles estão com medo de alguma coisa aqui, talvez pela aglomeração de pessoas, e estão preocupados conosco.”

O passeio, afinal, correu bem. Meses depois, em Madri, combinamos um encontro e eu fui convidada para jantar na casa dessa adorável família. Conversa vai, conversa vem, surge o assunto do tour pelo centro do Cairo. E o pai da família revela que, antes de nos deixar, o guia falou para ele: “Tome conta das mulheres porque aqui os homens passam a mão nas bundas.” E pai e filho passaram o tour ansiosamente preocupados em proteger a esposa/mãe e a filha/irmã. E me incluíram no pacote. Que tenso ter que se ocupar de nós e, ainda por cima, pechinchar nas lojas.

E eu que pensava que isso de passar a mão era história. Bom, entre bundas e pechinchas, salvaram-se todas.

Veja também:

o lado MALUCA da ADRIANA

o lado GONÇALENSE do EGITO

o lado MOVIMENTADO de ABU SIMBEL

o lado ENGARRAFADO do CAIRO

o lado TRANSFORMISTA de HATSHEPSUT

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Uma ideia sobre “o lado BUNDAS E PECHINCHAS do EGITO

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