O lado maluca da Adriana.

Eu em primeiro plano e a Esfinge de Gizé ao fundo.

Zerei a vida. Nada mais a declarar. A Esfinge e eu.

O dia da visita à famosa Esfinge de Gizé foi o mesmo dia da ida às grandes pirâmides. Digo “famosa” porque existem muitas e muitas delas, mas esta é aquela a que as pessoas se referem como “a Esfinge”, dando-lhe um ar de exclusividade, embora não seja assim.

O nome esfinge é de origem grega e foi atribuído às esfinges egípcias devido a relativa semelhança que têm com as gregas. Ou seja, essa particular miscelânea de corpos de diferentes seres em uma criatura só.

Na mitologia grega, a esfinge tem corpo de leão, cabeça de mulher e asas de águia. No caso da grande Esfinge de Gizé, não há asas e a cabeça não é de mulher, mas sim, de homem, o faraó Quéfren. Bom, pelo menos, esta é a teoria mais aceita. Pois, sim, há controvérsias. Mas, me restringindo ao que o guia contou, não entrarei nesse mérito.

Para nós, visitantes, contemplar uma estátua daquele porte, daquela idade, plantada no meio de uma cidade grande cheia de gente, trânsito caótico e suas peculiaridades é, no mínimo, fascinante. Há quem não pense assim, certamente. Porém, acho que essas pessoas simplesmente não vão até lá.

Para mim, a Esfinge sempre representou algo inalcançável. Primeiro que, quando se é criança, a maior parte das coisas é inalcançável a curto prazo. Sim, eu já pensava nela desde pequena, digo, criança. Mas nem cogitava tamanho feito, óbvio. Depois de adulta, comecei a percebê-la como meta mais acessível, ainda que um tanto envolta de mistério e incertezas. E não me refiro à sua História. O mistério em questão era mais do tipo “seria um lugar seguro para se visitar?”. E a incerteza era algo como “voltaria eu inteira e viva de lá?”.

De modo similar, também tinha certo receio sobre a Grécia, devido às manifestações que, com certa frequência, eu via acontecer em Atenas, pela televisão. Aliás, foi esse receio que me fez ir em busca de uma agência, em julho de 2013, embora os meus dias na capital grega tenham sido passados sozinha. Desfrutei da companhia de grupo de excursão apenas no Peloponeso, Meteora e Ilhas.

Como tudo aconteceu de modo perfeito na Grécia, não hesitei em aceitar, um ano depois, a oferta que chegou na minha caixa de e-mails, da mesma agência. Um pacote para o Egito! Cruzeiro pelo Nilo e Cairo. Nunca havia visto a oportunidade tão de perto.

Eu em cima de um dos "degraus" da pirâmide Quéops. Foto tirada por uma pessoa que estava embaixo, no chão.

Nas pedras de Quéops, uma das três pirâmides de Gizé.

Depois de pensar e calcular um pouco, me decidi por comprar o pacote. Bom preço e agência já conhecida e confiável me fizeram tomar esta decisão. Pronto. Eu já estava me sentindo lá. Sabe quando a gente fala para um cachorro “Vamos passear?” e ele fica imediatamente em polvorosa, mesmo sem ter ainda saído de casa? Então. Eu estava assim. Guardadas as devidas proporções, lógico. Não cheguei a saltar em cima dos outros, com a língua de fora e a respiração ofegante. A esse ponto, não cheguei não.

E o que acontece quando, depois do anúncio do passeio, você diz para o seu cachorro que ele não vai mais passear? Sinceramente, não sei, pois eu nunca dei tamanho desgosto para a minha cachorrinha. Já os terroristas, sim, me jogaram um balde de água fria!

A viagem estava marcada para abril de 2014. No final de fevereiro do mesmo ano, eis que recebo um e-mail da agência me dizendo que, devido às notícias, eu poderia cancelar a minha viagem sem custos. Mas eu deveria avisá-los da minha decisão até segunda de manhã. O e-mail tinha sido enviado no sábado anterior. Caso eu aceitasse viajar mesmo assim, eu não poderia desistir mais. Ou melhor, poderia, mas não teria o meu dinheiro de volta. A menos que o ministro do Egito proibisse a entrada de estrangeiros no país. Confesso que não sabia o que havia acontecido. Notícias? Fui verificar.

E descubro nada menos que, no dia 16 de fevereiro, um ônibus de turistas sul-coreanos tinha sido atacado por terroristas. Frio na espinha. E raiva! Tristeza pela morte de tantas pessoas e pela confusão que esse país enfrenta. E indignada por não poder mais realizar a tão sonhada ida àquele destino.

Pedi opinião à minha mãe e ao meu irmão. Mas, antes mesmo de eles terem tido tempo de ler a mensagem que lhes havia mandado, eu decidi que iria desistir. Enviei um e-mail à agência dizendo que cancelava a minha ida. E  em seguida enviei a mensagem abaixo para a minha família:

Queridos Mamãe, Daniel e Lupe,

Acabei de responder o e-mail da agência, cancelando a viagem. Agora eles vão me devolver o dinheiro que eu já havia depositado. Foi com muita pena, mas não estou sentindo firmeza.

Sei que o medo não leva a nada, mas não posso me meter, deliberadamente, numa possível confusão dessas, onde haverá a forte possibilidade de muitas pessoas desesperadas.

Como diria o professor de matemática Petersen: Fiquei triste, chupeta.

Mas tenho certeza de que em alguns anos tudo estará bem e eu poderei conhecer as maravilhosas pirâmides e a Esfinge.

Sei que pedi sugestão a vocês, mas eu mesma me imaginei indo nessas condições e não senti firmeza. Então, tomei a decisão. Enquanto era apenas um cenário hostil para pessoas desacompanhadas, tudo bem. Mas agora que a coisa se volta contra ônibus de turistas estrangeiros, ficou difícil ser valentona.

Seria muito mais fácil se o tal ministro do Egito proibisse logo a entrada de turistas no país. Assim, eu não precisaria decidir. Mas a batata quente caiu no meu colo e como disse a Luz, funcionária da agência, eu que teria que decidir se queria levar adiante ou não.

No final das contas, nada mais apropriado do que um e-mail com essa “Luz”, para que eu pudesse saber do ocorrido e pudesse escolher antes. Sem gastos.

Beijinhos para Mamãe, Daniel e Lupe.
Adriana”

A base da pirâmide Quéops.

A base de Quéops e alguns turistas. Havia poucos.

Depois disso, bola para frente. Torcer para que tudo corresse bem no Egito e que a sua população pudesse viver em paz. Passei um domingo desolada (exageraaaada…) com a impossibilidade de conhecer o Egito. Mas a segunda-feira veio com uma ótima notícia! A mesma Luz, funcionária da agência que me atendia, me escreve e diz: “Adriana, recebemos a notícia de que a coisa está tranquila. Quer o pacote de volta?” Ai, meu Deus! E agora? O que fazer? E, como podem notar pelas fotografias, sim, eu decidi ir! “A coisa está tranquila” definitivamente não é o melhor argumento para esse tipo de situação mas, vejam só, me convenceu. Força na peruca e lá fui eu!

Não me arrependo de jeito nenhum. Realizei o meu sonho e, de fato, a coisa estava tranquila, apesar do episódio da visita a Abu Simbel com escolta da polícia e de ver tanques de guerra em volta do Museu de Egiptologia no Cairo. Soa mal mas, de verdade, tudo correu bem.

Conheci pessoas que hoje me são muito queridas, aprendi, vi lugares totalmente novos do Antigo Egito e parecidos com absolutamente nada visto por mim anteriormente. E me diverti identificando semelhanças do “Novo Egito” com partes do Brasil.

Sabe-se lá quando poderei voltar. Foi muito bom poder estar ali. Uma experiência que ninguém me tira.

Veja também:

o lado GONÇALENSE do EGITO

o lado TRANSFORMISTA de HATSHEPSUT

o lado MOVIMENTADO de ABU SIMBEL

o lado ENGARRAFADO do CAIRO

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2 ideias sobre “o lado MALUCA da ADRIANA

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