O lado estivador da Adriana

Imagem feita a partir de desenhos que representam malas de viagem.

Tenho um amigo que viaja o mundo apenas usando milhas acumuladas e estrategicamente multiplicadas. O cara é um ás dos programas de milhagens. O cérebro dele já está preparado para vislumbrar a melhor solução, o melhor caminho até o destino almejado, através das vantagens oferecidas por esses programas de pontos, sem gastar nada mais.

Já foi três vezes à Europa de graça, enquanto que pobres Homo sapiens continuam gastando os tubos para se dar esse prazer do turismo. Sim, porque ele deve ser de outra espécie que não a nossa. Seu cérebro certamente está adaptado de maneira incomum, que lhe proporciona fazer sinapses que vocês e eu, meus queridos, não fazemos. Ah, não fazemos não.

Eu, ainda por cima, tenho observado que sou o oposto. Não só pago pelas passagens, como acontece de eu pagar duas vezes. Esta vez que fui ao Brasil de férias (post escrito em setembro de 2015), comprei alegremente uma passagem de ida e volta Madri-Rio/Rio-Madri para passar um mês no Brasil. Comprei para o voo mais barato que havia, um cata-corno que partia de Madri, subia para Frankfurt e, só então, descia para o Rio. Ok! Até aí, tudo ótimo. Qual o problema de querer economizar? Nenhum. Porém, depois de compradas as passagens, eu tive a repentina ideia de ficar mais três semanas no Rio. E vocês pensam que eu podia remarcar a data da minha volta já comprada? Claro que não, pois era uma tarifa ultra-econômica, ou seja, não admitia nenhum tipo de adiamento.

Foi então que comprei uma nova passagem de volta, separado. E perdi a anterior, obviamente.

Como rei que é rei nunca perde a majestade, a rainha aqui procurou o voo Rio-Madri mais barato que houvesse para o dia 22 de setembro. E achou. Direto para Madri? Ora, claro que não. Com escala em Londres. Eu disse escala? Bem, estou sendo boazinha ao nomeá-la desta forma. Quando o voo tem escala, o passageiro pega mais de um avião para chegar ao seu destino, correto? A pessoa faz check-in na partida, despacha as malas e só vai olhar para as caras delas de novo no destino final. No meu caso, com esta última passagem que comprei, as queridas malinhas (um boizinho de 23kg cada uma) não foram para Madri direto, como já era sabido, lamentado e aceitado por mim no ato da compra da passagem. E lá estavam elas, dançando e rodando na esteira de recolhimento de bagagens no aeroporto de Heathdrow, em Londres, ávidas por serem despachadas de novo, desta vez, para Madri.

Mas não era só isso. Além de ter que recolher as malas e despachá-las novamente, eu tinha que mudar de aeroporto. E assim foi.

Puxei as duas da esteira para o chão e lá fomos nós: as duas malas, uma de cada lado, uma mochila grande nas costas e uma bolsa no ombro. Eu me sentia praticamente um destaque de escola de samba, com o detalhe de que eu tinha que empurrar os adereços.

Quando cheguei à parada do ônibus que ia para o outro aeroporto de Londres onde eu deveria pegar o outro avião, para Madri, o motorista, que estava ajudando todo mundo a acomodar suas malas no bagageiro, verifica meu ticket, diz que está tudo bem, vira para mim e diz: “Essas malas nós não podemos tocar. Coloque-as você no bagageiro, por favor.” Nada mais justo. Se eu quero carregar a casa nas costas é problema meu mesmo. E chupei aquela manga sozinha, como tinha que ser.

Agora, brincadeiras à parte, não sei por que ele não podia tocá-las. Seria por serem muito pesadas? Ou, quem sabe, seria por estarem embaladas com aquele filme plástico colorido que serve como proteção? Bom, como eu não perguntei o motivo ao motorista e apenas aceitei minha cruz com resignação, nunca saberei o porquê.

Se, na esteira, eu apenas tive que puxá-las para baixo e apará-las um pouco, no bagageiro do tal ônibus, a lei da gravidade não ajudou. Ouso dizer, inclusive, que atrapalhou. Por que será, não é? Não era muito alto, mas tinha lá a sua alturinha. Não frequento academia de ginástica, mas costumo dizer que faço a academia da vida real. Naquele dia, trabalhei os braços, sem dúvida. As dores musculares que senti, no dia seguinte, me convenceram que sim.

 

***ADENDO/ERRATA***

Pessoal, Bruno Moura é o nome do meu amigo que sabe tudo de milhas e que, em breve, lançará um blog sobre esse assunto. E Bruno Leal é um amigo meu que é piloto e, através dele, eu fiquei sabendo que voos com escalas são aqueles em que o passageiro não sai do avião durante a parada. Já quando ocorre de o passageiro ter que descer de um avião e pegar outro para o destino final, a isso dá-se o nome de conexão. E quando o passageiro tem que sair do avião, pegar as malas, mudar de aeroporto, despachar as malas de novo e pegar outro avião, a isso eu chamo de via crucis mesmo.

5 ideias sobre “o lado ESTIVADOR da ADRIANA

  1. Maria Cidalia de Figueiredo Rivas

    Adriana, adorei esse seu relato.
    Enquanto o seu amigo viaja de graça fazendo “mágica” com as milhas, pelas minhas contas já é a terceira vez que vc gasta em dobro com passagens. Estou enganada?
    Bjs!

    Responder

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