O lado patético de uma vendedora.

Foto do início da rua comercial do centro de Gibraltar.

Atrás da câmera, começando meu passeio pelo centro de Gibraltar.

Estava eu caminhando por uma rua do centro de Gibraltar. Uma das mais movimentadas e comerciais. Caminho, olho, observo, paro. Volto a caminhar. De repente, uma moça se dirige a mim, sorridente. Olho para uma das suas mãos, que estava erguida em minha direção. Segurava um pequenino paralelepípedo alaranjado e translúcido. Queria me dar tal coisinha, me oferecendo-a. Perguntei o que era aquilo. Ela me disse: “It’s soap!”

Simpaticamente aceitei o sabonetinho e agradeci. E ela, como é natural, puxou assunto, pois sou muito interessante. Perguntou o meu nome, me disse o dela, quis saber de onde eu era e o que eu estava fazendo ali. Vendedoras… Sabe como é. Mas, tudo bem. Fui respondendo.

Enquanto estou falando, ela olha para as minhas unhas e diz: “Oh, você costuma usar as unhas assim, ao natural sempre?” Respondi que sim. “Ótimo!”, disse ela. E me puxou para dentro da loja. Pensei: “Xiii… Que perda de tempo.” Não para mim, pois eu não tinha nada importante para fazer naquela hora. Perda de tempo para ela. Sim, porque eu tinha resolvido já na minha cabeça que não compraria rigorosamente nada.

Eis que ela me vem com uns apetrechos. Me mostra um conjunto de três lixas: azul, cinza e branca. Pede para que eu escolha uma das minhas unhas. Escolho a do polegar. E começa a passar uma das lixas nessa minha unha. Enquanto isso, mais perguntas. “O que você faz? É a primeira vez que vem a Gibraltar?” Termina e diz que vai passar a segunda lixa. E tome lixada. Enquanto isso, me conta sobre o produto em questão. Feito com não sei o quê do Mar Morto. E eu suuuuper interessada.

Ao finalizar com a segunda lixa, me vem com a terceira. Para lá, para cá, para lá, para cá e… Afasta a lixa da minha unha e… Tcham, tcham, tcham, tchaaaaaam! A unha estava brilhando. Parecia ter sido pintada com esmalte incolor. Realmente fiquei impressionada. Então ela diz para eu mesma fazer em mim. Fiz. Ohhhh…! Brilhando também a unha do indicador! Por fim, pega um removedor de esmaltes e passa nas minhas unhas. O brilho permanecia intacto. Uma maravilha da química essa invenção! Ou seria da física? Ah, sei lá.

Só sei que depois disso ela se despediu e me disse até logo. Mentira. Se isso acontecesse, aí sim eu me surpreenderia de verdade! Mas não, nada de até logo. Ela veio, isso sim, com o golpe final. Aquele que eu já esperava. Pegou uma caixa onde vinha um kit com as lixas e mais uns sabonetes e disse: “Este kit com as lixas e mais estes sabonetes que são maravilhosos e tem um perfume muito bom, sai por 50 libras.” Isso mesmo, fifty pounds. Mas não acabava por aí.

Ao comprar o kit por 50 libras, eu automaticamente ganharia um segundo kit, de presente. Vejam que maravilha! E ela continuava: “Você compra um kit para você e o outro nós damos de graça, para que você possa presentear uma amiga.” Devo ter cara de idiota, só pode! 50 libras por três míseras lixas e dois sabonetes e o segundo kit sai de graça?!?! De graça onde?! Ah, e façam a conversão. Daria mais de 200 reais essa brincadeira. Ou eu tenho cara de burra ou tenho cara de rica. Das duas, uma.

Bom, ela fez o seu papel de vendedora e eu fiz o meu papel de pessoa mais escorregadia do que um quiabo: “Bye bye, so long, fare well…!” E falei que não tinha dinheiro para isso. Mas, claro, ela não se deu por satisfeita. Ela queria tentar mais alguma coisa. Não era possível para ela que eu saísse assim da loja sem ao menos ter a certeza de que ela me considerava uma perfeita idiota. Foi para isso que eu fui ali, afinal. Para que minha inteligência fosse insultada sem limites.

Preparem-se, queridos, que agora vem o melhor. A mocinha da loja muda de expressão, como se estivesse bastante empática com a minha situação de sem-dinheiro, e me propõe: “Eu lhe ofereci um kit por 50 libras e o outro grátis, para você presentear uma amiga. Que tal se fosse um kit apenas, para você?” E me fala isso agora com a voz bem baixinha, como se estivesse prestes a fazer algo proibido, algo que as demais vendedoras e frequentadoras da loja não pudessem ouvir. Em seguida, pede que eu espere e, em tom de mistério, vai ao fundo da loja.

A criatura me volta com uma calculadora na mão.

Bem didaticamente, vira o visor do aparelho para mim e repete a lenga-lenga, mas agora teclando na máquina. “Antes, seria um kit para você por 50 libras e você levaria um grátis.” E marca, na calculadora, o número 50, para que eu acompanhe aquele cálculo complexo. “Agora, eu ofereço um kit apenas, com desconto. Sai por 25 libras.” E tecla 25!

Querida, para isso não é necessário calculadora! Ora, vejam só. 50 dividido por 2 dá 25. A matemática não falha. O que falha é esse discurso maligno de querer enganar um possível consumidor. Uma caixa por 50 com mais uma grátis é o novo duas caixas por 25 cada uma, para a tal vendedora. Ah, me poupe!

Fui educada e disse que ia dar uma volta. Ela percebeu que eu não iria comprar nada e disse, com cara de desânimo: “It’s ok, love.”

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2 ideias sobre “o lado PATÉTICO de uma VENDEDORA

  1. Maria Cidalia de Figueiredo Rivas

    Adrianinha, como diz o Daniel Gesteira, “todos os dias sai um parvo de casa”. Essa vendedora, pelo visto, está procurando o tal parvo. Por que vc não disse pra ela que essa lixa “maravilhosa” vc compra aqui no Brasil por cinco reais? Ela iria adorar saber. Bjs!

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