O lado pastelão de ir ao Consulado.

Um dia precisei ir ao Consulado Brasileiro em Madri, para fazer uma procuração.

Como estava passando em frente, entrei para saber o que deveria fazer para ser atendida. Os guardas me disseram que eu deveria marcar um horário através de um email que eles me deram ali.

Depois de tanto tempo sem obter resposta, voltei lá e expliquei a situação à guarda. Ela me disse que então ela mesma iria marcar um horário para mim. E assim foi: marcou para o dia seguinte. Por coincidência ou não, quando cheguei de ter estado lá conversando com ela, eis que chega uma resposta ao meu pedido de agendamento, dizendo que eu estava marcada para a sexta daquela semana. Fingi que não li. Ah, me poupe. Me dão o email errado, demoram uma semana para responder e, depois que fui lá resolver a questão tête-à-tête, me marcam para o final da semana. “Vou é amanhã!”, pensei, decidida.

Chegando lá, a guarda me reconheceu e simpaticamente foi lá dentro avisar a minha importante chegada. Bom, pelo menos me senti assim. E não me convençam do contrário.

Ela voltou e pediu que eu aguardasse um pouco que, em alguns minutos, me atenderiam. Os tais minutos passaram e lá fui, ser atendida no guichê número 5, conforme me indicou.

Jerusa. Assim chamarei a criatura mitológica que me recebeu na quinta toca.

Um misto de perua, Ana Maria Braga e vovó do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Pegou meu pen drive e abriu o arquivo com o modelo de procuração que levei. Imprimiu para ler melhor os dados que deveriam ser ingressados em um formulário no computador.

Ainda bem que o monitor dela estava virado de maneira que eu pudesse ver também. Jesus! Como errava essa mulher! “Carteira” era “Cateira”, “501” era “201”, “Tiradentes” era “Tiraden    tes”. E eu usando toda minha sutileza para corrigi-la sem parecer mal-educada.

Na hora de copiar a parte do texto que começa com “concede a…” e vai até o final, ela não me copia e cola um texto de uma outra procuração? “Ué, acho que não é o seu… Alzira? Não, não é o seu.” Pediu o pen drive de novo e abriu, de novo, o meu modelo. Copiou e colou no formulário. Agora sim.

“Vou imprimir para que você leia e confira se os dados estão corretos.” Por favor!

Isso tudo em meio a migalhas de biscoito maria.

Leio o rascunho, conferindo na maior atenção, olhando uma folha e a outra (estilo “bolá lá, bola cá”), enquanto vou me guiando com os dedos, demarcando os dados a serem verificados. Quem visse acharia que eu era cega, lendo em Braille freneticamente.

Opa! Um erro. Ao invés de “16”, ela colocou “18” na data de expedição da minha carteira. Circulei e mostrei para ela, quando voltou tomando um suco.

“Aqui é uma loucura. A gente não tem tempo de comer. De 8 às 15h, direto, sem almoçar.” Ok. A senhora está desculpada pelos farelos.

Depois me disse que eu deveria pagar 22 euros. Peguei o dinheiro e fiquei esperando. “Você ainda não foi pagar? É ali no caixa eletrônico, não é aqui não.” Obrigada por avisar. Eu pensei que eu tinha que ter nascido sabendo isso.

Corrigiu o erro, imprimiu a versão definitiva, assinei e ela colocou toda a sorte de “estigmas validadores” no papel: carimbo, selo, protetor de assinatura ou como queiram chamar.

E assim foi. Cada coisa estranha que acontece.

4 pensou em “o lado PASTELÃO de IR AO CONSULADO

  1. Maria Cidália de Figueiredo Rivas

    Dei boas gargalhadas ao ler esse episódio. Sabe, você já está fora do Brasil tem um tempinho, por isso eu acho que você já se esqueceu como é precisar ir a uma repartição pública. São idas e vindas intermináveis. Confesso que agora deu uma melhorada porque algumas só atendem se a pessoa tiver agendado. Parabéns pela narrativa. Agora estou ansiosa para ler a “ida ao ginecologista”. Bjs!

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    1. facebook-profile-pictureadrivas Autor do post

      Pois é! Mas eu estava de bom humor. Aqui funciona muito bem esse sistema de agendamento pela internet e evitam-se muitas filas. Mas no Consulado Brasileiro, pelo menos quando precisei, não funcionou. Por outro lado, o atendimento da agência do Banco do Brasil em Madri é ótimo. Me sinto uma VIP! (Very Important Pobre) Hehehe!

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