Os lados es(x)quisitos da horchata.

Quando morei em Barcelona, em 2009, tive o prazer de conhecer uma bebida refrescante chamada horchata de chufa. Ou, em valenciano, orxata de xufa.

Foto de um copo com Horchata.

Horchata geladinha!

Ainda era inverno quando soube, através de uma amiga, da existência desse líquido suavemente doce. A horchata deve ser tomada muito fria, o que nos leva a pensar que deve ser consumida no verão. Principalmente porque, no inverno, só dá vontade de tomar chás, cafés e chocolates quentes. Digo por mim, claro. Os fiéis à cerveja, por exemplo, não a deixam por nada, pouco importando a estação do ano.

Mas, enfim, a horchata, como não é alcoólica, não tem esse apelo nos dias de frio. Mas nos dias quentes, mmmm…! Que delícia!

Estou eu aqui dizendo maravilhas da horchata e, muito provavelmente, acontecerá algo que é pouco vantajoso neste mundo de experiências sensoriais: a expectativa de quem lê este texto. Nós, brasileiros, temos a tendência a preferir o doce bem doce.

Quando experimentei a horchata e o primeiro gole estava prestes a sensibilizar as minhas papilas gustativas, o meu cerebrinho, que gracinha, estava crente-crente que iria experimentar uma bebida bem doce. Tanto se falava que aquela bebida era uma delícia, que eu só pensava que seria assim. Na minha cabeça: delícia = doce. Simples.

E de fato é, mas é bem suave. O que, por sua vez, nos dá a oportunidade de sentir o seu aroma delicado das chufas. E um toque de canela.

Foto de um copo com horchata e polvilhada com canela.

Polvilhada com canela também é muito gostosa.

Lembro-me de que a irmã de uma amiga portuguesa, que estava hospedada no apartamento onde eu morava em Barcelona, foi introduzida à horchata por um rapaz catalão que estava todo empolgado por mostrar a ela os produtos típicos da região (embora a horchata seja típica de Valência, não da Catalunha).

O menino encheu um copo com a bebida e o entregou à moça portuguesa, para que ela a experimentasse. A menina provou e disse, fazendo uma cara de estranheza: “Esquisito…” Ao que o catalão respondeu, eufórico: “Ay, sí, ¡sí! ¡Exquisito!” Um pequeno detalhe: “exquisito”, em Espanhol, significa gostoso, muito bom. E eu, assistindo à cena, dei um sorrisinho discreto. Bem, a portuguesa exerceu sua sinceridade, dizendo que a horchata estava esquisita, estranha. E o catalão/espanhol ficou contente, achando que tinha agradado. Um mundo feliz é assim.

Posso estar errada, mas acho que os portugueses também estão mais acostumados com sabores doces muito doces. Basta lembrar de todos os superdoces docinhos portugas.

Por isso, é bom não ter preconceito na hora de provar a horchata. Depois do primeiro copo da garrafa da marca Chufi (versão industrializada recomendada por uma amiga valenciana), eu comecei a adorar essa bebida! E aí tinha pena de beber tanto e acabar com ela tão rápido.

As chufas são tubérculos e provêm de uma planta herbácea que se cultiva muito bem em solos arenosos e clima temperado. Aqui na Espanha, é típica da comunidade autônoma de Valência, como já disse, onde é comum ver barraquinhas vendendo a horchata, além de ser possível pedi-las em cafeterias ou mesmo nas horchaterias.

Que me perdoem os puristas, mas a minha preferida ficou sendo a de garrafa, a Chufi. Em Valência, tomei uma em uma horchateria e acho que não dei sorte. Também existe a versão granizada, mas eu ainda gosto mais dela bem líquida, ainda que bem fria.

Quando voltei ao Brasil, em agosto de 2009, levei comigo um saquinho de chufas que, por acaso, minha prima espanhola tinha e me deu. Fiquei toda contente que iria preparar a horchata no Brasil. Procurei o modo de preparo na internet e lá fui eu. A quantidade que eu tinha desses diminutos tubérculos foi suficiente para preparar 1 L de horchata. E ficou gostosa. Já se haviam passado alguns meses desde a minha chegada ao Brasil e aquilo tinha um gostinho de nostalgia.

Decidi me controlar e beber só um pouco, para ter para depois. Qual não foi a minha surpresa ao, no dia seguinte, perceber que tinha se formado praticamente uma pedra no fundo da jarra. Um cimento espesso e grudado no vidro. Claro, as de garrafa não têm esse problema, mas as horchatas frescas e naturais, como era o caso da que eu tinha preparado, têm um resíduo que se sedimenta, aos poucos, no fundo do recipiente onde estão armazenadas. Por isso que, nas horchaterias sempre se vê uma hélice girando dentro da refresqueira.

“Quem guarda sempre tem” não se aplicou à situação. “Mi gozo en un pozo”, como se diz por aqui, foi o dito mais adequado para o final desta história.

5 pensou em “os lados ES(x)QUISITOS da HORCHATA

  1. Paula

    Eu tomei isso em Barcelona!! hahaha lembro que tb achei esquisito e o cara da cafeteria não soube explicar bem do que era feito… ou eu não tive capacidade pra entender…fiquei achando que era feito de soja..rsss
    Lembro que vi a refresqueira com a hélice girando e fiquei curiosa e o rapaz me deu uma prova.
    Adriana, adoro seus posts!
    Diversão garantida.
    Bjs

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  2. José Artur Silvestre

    Olá Adriana,
    Como já lhe tinha manifestado antes, aprecio bastante a sua forma de escrever, que permite uma leitura agradável e sempre com um sentido positivo e divertido.
    À socapa, já tinha lido outros artigos seus (a ida ao ginecologista, por exemplo, despertou-me a atenção e achei deliciosa a cena, principalmente pela forma descontraída e inocente como a descreve…).
    Portanto, PARABÉNS.
    Continue escrevendo as suas experiências de viagem, sempre muito interessantes, pois com elas também nós vamos alargando os nossos horizontes e ficando com algum desejo de visitar esses lugares.
    E, porventura, com o material já editado, também acho que deveria pensar a sério em publicar um livro de viagens. Teria certamente muito êxito. Pense nisso.
    Beijinho

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    1. facebook-profile-pictureAdriana Rivas Autor do post

      Oi, Zé Artur!

      Que alegria ver um comentário seu! Fico feliz que esteja gostando das histórias. Penso em fazer um livro mesmo que seja só para mim, ou seja, ter o material impresso para guardar. Muito obrigada pelas palavras, volte sempre e fique à vontade para comentar quando quiser. Beijinhos!

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