O lado bendito da ignorância

Eu, de cabelo em pé pelo vento. Ao fundo se vê o mar.

Aguentando firme para sair na foto. Sobre os meus cabelos, não posso dizer o mesmo.

Estava eu me preparando para ir dormir quando escuto o barulhinho de chegada de uma mensagem no whatsapp. Era minha amiga Carol, que foi minha companheira de viagem em 2014, na Irlanda e na Escócia.

Ela tinha acabado de me mandar um link que levava a uma reportagem com a lista das 6 mais perigosas viagens no mundo e chamava a atenção para o 3º lugar. Nada mais, nada menos que Cliffs of Moher, no condado de Clare, Irlanda. E nós tínhamos estado lá.

Quando decidimos conhecer a Irlanda, nunca nos passou pela cabeça que poderíamos correr perigo algum. Não é considerado um destino arriscado e nem era nossa intenção fazer nada extravagante que pusesse nossa integridade física em risco. Tínhamos em mente fazer um turismo agradável conhecendo lugares de beleza natural. Beleza natural salpicada de castelos aqui e ali.

Eu de olhos fechados e cabeça erguida. Um feixe de luz vem em direção ao meu rosto.

Carol captou este belo momento.

Como as localidades que desejávamos conhecer ficavam um tanto distantes umas das outras e, além disso, não muito acessíveis através de transporte público, nos decidimos por comprar um pacote de cinco dias pela Irlanda e Irlanda no Norte.

Éramos um grupo de umas dez pessoas com nacionalidades variadas. Diferente dos grupos das excursões que fiz à Grécia e ao Egito, este transitava pela faixa etária dos 20 anos. Desnecessário dizer que eu era uma vovozinha ali, embora ninguém tenha nem desconfiado. Além de mim, uma moça de uns 55 anos ajudava a subir a média de idade do grupo.

Ainda comparando com as viagens à Grécia e ao Egito, nesta o guia era multiuso. É verdade. Além de guia, ele era motorista. Imprescindível dizer que a sua função guia só era ativada quando a função motorista era colocada em ação. Fora do volante, ele era um homem normal. Nem tanto, na verdade. Mas, enfim, estou querendo dizer que ele só atuava como guia enquanto dirigia o nosso ônibus.

Com um microfone estilo Madonna (aquele que fica agarrado na cabeça), o talentoso rapaz mantinha-se atento a semáforos, pedestres, carros e placas ao mesmo tempo em que nos contava histórias e curiosidades sobre o local onde se daria a nossa próxima parada.

Chegando ao destino, ele simplesmente se limitava a indicar por onde tínhamos que seguir para conhecer as partes de maior valor turístico do local e a estipular uma hora de retorno ao ônibus. Nada de nos acompanhar. Enquanto fazíamos turismo, o guia ia matar o tempo em algum bar próximo.

Tempo este que era muito curtinho. Lembram-se das três horas que passei em um sítio arqueológico na Grécia? Pois então. Na Irlanda, a média rondava os 30 min.

Dadas as coordenadas, a molecada saía correndo freneticamente. Ah, a juventude! Quanto ânimo! Bom, na verdade, ânimo eu tenho. Ânimo para tirar fotos, buscar enquadramentos, apreciar o caminho, observar detalhes. Bem diferente do esquema bate-e-volta-e-fazer-check-na-lista-de-pontos-turísticos-para-ver. Next!

Logo nas primeiras paradas, Carol e eu percebemos que não éramos exatamente o público-alvo da agência. E olha que Carol é jovem!

A vegetação mexida pelo vento. Muitas curvas e precipícios. O mar azul e revoltoso. Vê-se o caminho pavimentado pela orla.

Muito chão pela frente!

Foi em Antrim, Irlanda do Norte, onde me lembro de ficar bem clara essa divisão. Paramos para ver a orla das proximidades de Ballintoy, onde a ponte suspensa de Carrick-a-rede atrai uma quantidade considerável de turistas. A paisagem era impressionante e, mesmo de dentro do ônibus, tinha o poder de comover os visitantes.

Mal estacionamos, foi dada a largada! Impacientes, os mocinhos e as mocinhas partiram em retirada a fim de seguir o trajeto transmitido pelo guia. Poucos segundos depois, eles não passavam de formiguinhas no horizonte para, tão logo, desaparecerem.

A combinação de mar revoltoso e azul com limites escarpados da terra dava um ar imponente ao lugar. E, por falar em ar, este era item que também se esbanjava por ali. Para se chegar à orla, havia um caminho pavimentado por onde os visitantes podiam passar. Um trecho do caminho era de degraus. Nunca desci tão rápido uma escada! O vento era tanto e tão forte que nos empurrava costa abaixo. E eu me danava de rir, achando tudo aquilo muito divertido.

A escadaria colina abaixo. Muito verde em volta e o mar abaixo.

Para baixo todo santo ajuda!

Mas nossa vontade de observar os detalhes era tanta que, ao menor sinal de trégua do vento, parávamos e tirávamos as câmeras para registrar as paisagens. E, assim, fomos descendo pela escada ajudadas por todos os santos e pelo vento, claro.

Foi quando a moça que mencionei acima finalmente nos alcançou. Sim, ela também gostava muito de fazer os passeios com calma. E nos pediu para que tirássemos uma foto sua, com o seu celular. Já viajei muito sozinha e sei que esse tipo de ajuda previne excesso de selfies. Claro que sim!

Nesse meio tempo, o grupo da excursão passava por nós, já fazendo o caminho de volta. “Xiii…”, pensei. Aproximava-se a hora da partida do ônibus. E nós nem tínhamos ido ao final da orla. Fiquei alerta ao tempo, para não nos atrasarmos.

Nossa colega, a tal moça, resolveu então se interessar por uma porta que estava um pouquinho mais abaixo da colina que descíamos. E me pediu para ir até lá com ela para que eu lhe fizesse mais uma foto. Na tal porta de metal, havia uma placa de advertência. Eu não conseguia ler o que estava escrito mas que advertia, advertia. Sendo assim, eu disse a ela que não iria, pois parecia arriscado. Alem disso, eu estava bastante preocupada com a hora. Praticamente o coelho da Alice.

As colinas verdinhas e a porta de metal com a placa lá embaixo.

Eu me satisfiz em tirar uma foto da tal porta de longe mesmo.

Ela, então, desceu e foi até lá. Lembro-me de que veio um senhor uniformizado falar qualquer coisa com ela. Será que tinha alguma relação com a placa? Acho que sim. Aflita, eu queria ir embora. Já estava visualizando o ônibus seguindo seu rumo ou, pior, todo mundo dentro dele nos esperando. Quando a intrépida senhora voltou ao nosso encontro, começamos a traçar o nosso retorno.

Eu disse que o vento nos “ajudou” a descer a colina, não é mesmo? Pois agora era a vez de subir! Não preciso dizer que o vento não só não colaborava como dificultava bastante. E não era qualquer ventinho não. A sensação era a de que havia uma parede invisível nos impedindo de caminhar. E o relógio? Ah, esse sim! Só andava para frente.

Quando tudo parecia perdido, a nossa colega senhora nos dá uma ideia. “Que tal se dermos as mãos? Assim será mais fácil subir.” Eu não disse nada e quem cala consente. Ela agarrou meu braço esquerdo e Carol, por educação, segurou o direito.

Dar as mãos? E começar a rezar, né? Porque só se fosse por isso. Onde, neste planeta, três pessoas, formando uma barreira, conseguem atravessar o vento que vinha no sentido contrário? Muito longe de estarmos com formato aerodinâmico, essa ideia impedia ainda mais o nosso caminhar.

O mar, uma ilha e os precipícios.

Imensidão!

Para piorar, o capuz do meu casaco teimava em ir para trás, devido à força do ar. E, vale ressaltar, o ar era gelado demais! Mas nem por isso, eu fiquei de cuca fresca. Meu lado coelho da Alice estava aflorado! Estávamos atrasadas! E não conseguíamos sair do lugar.

De repente, Carol se desliga do bloco e, assim, consegue avançar alguns degraus. Nossa colega não seguiu o exemplo e permaneceu grudada em mim. Tentei abaixar um pouco a cabeça, a fim de furar o ar. Só o que obtive com esse intento foi fazer parte do meu cabelo descer para não sair mais da minha cara. Com o braço direito que a Carol gentilmente havia liberado, eu tentava colocar de volta o capuz, mas não conseguia tirar o cabelo da frente.

Em um momento de desespero, sem conseguir andar e nem enxergar, eu falei: “I’m sorry, I really need my arm back!” E, assim, pude andar, deixando a colega para trás e me sentindo um personagem de Seinfeld, agindo inescrupulosamente. Alcancei Carol e fomos conseguindo subir a colina.

Ilhotas e o mar azulzinho.

Graciosas ilhotas.

Depois de dobrar a esquina, já no alto, foi fácil. Bastou corrermos um bom caminho até chegar onde o ônibus estava. O guia esperou a colega que faltava, como tinha que ser. E, um tempo depois, ela chegou. Eu lhe pedi desculpas sobre minha atitude. E ela, muito amável, disse que eu havia feito “the right thing”.

À noite, já no aconchego do albergue, ficamos sabendo que aquele dia os ventos locais tinham sido notícia internacional, dada a sua intensidade.

Assim como Cliffs of Moher, a terceira viagem mais perigosa segundo o site Oyster, a orla de Antrim, onde estávamos, era repleta de precipícios e ventos fortíssimos. E nós tínhamos estado lá no dia em que o ar estava mais agitado a ponto de ser fato digno de nota nos jornais. E nós ali, rindo na cara do perigo!

A colina toda coberta de vegetação "penteada" pelo vento. E gotículas do mar voam contra a lente da câmera.

Espectro solar se revelando nas gotículas salgadas que vinham do mar.

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Carol Machado é uma grande amiga que muito me incentivou a começar a publicar minhas histórias. Designer, notável artista e fascinada pelo mundo celta. Daí a sua ideia de conhecer as Irlandas. Aventura na qual embarquei e que me rendeu bonitas fotografias e memoráveis histórias.

Quem quiser conhecer o excelente portfolio de Carol, é só clicar aqui: Dark Chimera!

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Sobre as 6 mais perigosas viagens do mundo:

. Oyster. com

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:: o lado COLORIDO da IRLANDA ::

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O mar bem azul de Antrim e o gramado bem verde.

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