O lado hakuna matata da Sacre Coeur

A basílica de Sacre Coeur e parte de sua escadaria, cheia de gente.

Na primeira vez em que estive em Paris, fui visitar a Sacré Coeur como tinha de ser. Um dos principais pontos turísticos parisienses, a basílica está situada no topo de Montmartre, o ponto mais alto da cidade.

Sempre achei que a sua arquitetura remetia a algo oriental. Na verdade, sua origem não tem nada a ver com o Oriente, exceto pelo fato de seu arquiteto, Paul Abadie, tê-la projetado seguindo um estilo romano e bizantino. O Império Bizantino é a continuação do Império Romano, sendo que a sua capital era Constantinopla, atualmente conhecida como Istambul. Ou seja, algo de oriental tem.

O funicular subindo até a basílica.

Funiculi, funicular, funiculi, funiculaaaar!

No entanto, a Sacré Coeur foi erguida no séc. XIX, quando não se via mais nem fumaça do Império Bizantino. Não sei quais foram os motivos de Paul Abadie para seguir esse estilo arquitetônico tão remoto no tempo e no espaço. De acordo com o que aprendi na faculdade de Design, isso é um tanto kitsch.

Mas não importa. Ela está nos nossos corações mesmo assim. E, no meu, divide um espaço com um fato bem interessante que se passou comigo quando nos conhecemos.

Quem já esteve lá ou já viu alguma fotografia da Sacré Coeur, sabe que, antes de sua porta de entrada, há uma imensa escadaria. Sei que existem escadarias mais compridas mas, convenhamos, é imensa sim. E, naturalmente, há grande quantidade de pessoas entre o primeiro degrau e a porta. Paris é a cidade mais visitada do mundo, segundo li e ouvi por aí. Ou seja, se estivesse vazio, seria algo muito estranho.

Ok. Toca subir!

Mas, espera aí! Existe um funicular que leva até lá. Esse trenzinho sobe a colina e faz com que se economizem umas centenas de degraus. Mas subir os degraus faz com que se economizem uns quantos euricos. De maneira que é ao gosto do freguês.

Como era a primeira vez que eu ia, achei que seria interessante experimentar o funicular. Em poucos minutos, lá estava eu, do lado da Sacré Coeur. Entrei na basílica, conheci o seu interior. E, depois de tudo visto, era hora de descer. A descida foi, então, pela escada. Pode-se descer também de funicular, claro. Mas eu já tinha passado pela experiência e, além do mais, descer sempre é mais fácil.

Fácil?

Duas fotos minhas com a Sacre Coeur.

Sem selfie. Com selfie. Qual ficou melhor? E era máquina, não era celular com câmera frontal.

Mal comecei os primeiros degraus, fui abordada por um simpático rapaz que, com um largo sorriso, veio com uma linha colorida e, não sei eu muito bem como, deu uma laçada com ela no meu dedo. Em um dos meus dedos, quero dizer. Senão fica parecendo que eu só tenho um. Igual àquelas pessoas que dizem que vão escovar o dente. Eu fico imaginando a pessoa escovando só um dente. Ou umas que dizem que têm o olho azul. E fico eu pensando: “Que olho será esse?” Enfim.

Com a linha enlaçada no meu dedo indicador, ele foi tecendo uma espécie de cordinha. O meu dedo estava ali fazendo de ponto de tração. E, enquanto seguia com o processo desse negócio, ele ia conversando comigo, me fazendo perguntas. “De onde você é? Ah, do Brasil? Ronaldo!! Pelé!”

Duas fotos da escadaria da Sacre Coeur e a basílica ao fundo, no alto.

A-há!! Aí estavam eles de novo, em 2012. Não contavam com minha astúcia!

Ele então me contou que era africano e repetia, entre uma laçada e outra, as palavras “hakuna matata” alternando com “sorte e felicidade”. Eu perguntei se hakuna matata queria dizer sorte e felicidade. Ele disse que sim.

No final do papo e muitos hakunas matatas depois, ele tira a cordinha colorida que ele fez e coloca no meu pulso. Ah, descobri então que era uma pulseira o que ele estava fazendo! Aí vinha coisa…

“5 euros!”, disse o rapaz, todo sorridente. E eu lhe disse o óbvio: “Mas eu não lhe pedi isto.” A cara dele fechou. A simpatia, a alegria, a hakuna-matata, a sorte e a felicidade foram para o espaço. A nossa tão nova amizade acabou ali, naquele instante.

Como a cara dele não reseteava de jeito nenhum e um outro rapaz amigo dele também estava olhando para mim, tratei de catar moedas que eu tinha no bolso da calça comprida. Eu não queria abrir a carteira. E fui tirando moedas do bolso. E ele só dizia “5 euros, 5 euros…” em loop. Estava com bug, o rapaz.

Quando completei 4,50, eu falei: “4,50. Só tenho isto.” E ele continuou: “5 euros, 5 euros…” Então saí andando e os deixei para trás. Agora vocês me perguntem por que eu não saí andando logo no início. Não sei. Só sei que foi assim.

Vista de Paris de um dos lances da escadaria.

A vista de Paris do alto de Mont Martre. Com um parapeito na frente, que foi o que eu quis fotografar.

Isto aconteceu em 2009. Em 2012, eu voltei a Paris. E quis voltar à Sacré Coeur, como não? Tinha em mente subir as escadas e deixar o funicular para lá, afinal, apesar de muito comprida a escadaria, é perfeitamente possível subir a pé. E lá estavam eles! Não sei se eram os mesmos, mas estavam lá com suas cordinhas.

Resolvi subir na cara e na coragem. Uma vez vi, numa entrevista, o Paulo Coelho falar que existe uma magia para se tornar invisível. E consiste em colocar os dedos polegares para frente e andar com os joelhos flexionados. Eu fiz isso, ainda que numa versão mais sutil. E, magicamente, ninguém se aproximou. Claro. Os caras devem ter olhado e pensado: “É doente mental. Vamos deixar a menina em paz.”

Moral da história: Paulo Coelho funciona.

Carrossel que fica antes das escadarias.

Sim, é aquele carrossel! Está ali pertinho da Sacre Coeur.

Leiam também:

:: o lado ASSUSTADOR de PARIS ::

:: o lado POÉTICO de PARIS ::

 

Mais sobre a Sacré Coeur:

* wikipédia

* página oficial

 

Significado de hakuna matata:

Print screen do Google translator. Diz que "hakuna matata" em Suaíli significa "não se preocupe" em Português.

Timão e Pumba tinham razão.

Gostou?

2 ideias sobre “o lado HAKUNA MATATA da SACRE COEUR

  1. Paula Moreira

    Já fui à Sacré Coeur umas 4 vezes e sempre subi pela escada (não é à toa que eu sempre volto de Paris mais magra rss), Como já estava avisada sobre esses caras da cordinha mandava logo um “Non”, me esquivando deles e tocava em frente. Mas nunca estava sozinha, acho que se estivesse ficaria muito intimidada e precisaria dessa técnica do Paulo Coelho.. kkkkk
    Bjs

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