O lado milagroso de um embarque na Ryanair

Quem é gente rica igual a mim sabe como é. Gente rica, sabe? Que compra voo da Ryanair para os horários mais gostosinhos, tipo às 6h da manhã. Que relaxa na cabine do avião, naquele espacinho aconchegante que propicia o deleite do calor humano de todo mundo juntinho. Que descansa nesse voo ao som melodioso de anúncios de loterias. Ai, ai… Não há comparação.

Irlanda, Ibiza e Escócia: alguns dos lugares aonde fui pela Ryanair!

E como não incluir nesse pacote de benefícios o suspense emocionante que se faz presente naquele espaço de tempo em que você aguarda o veredicto sobre se a sua mala passará pelo crivo do fatídico gabarito ou não? Aquele momento antes do embarque, em que todos os passageiros têm a oportunidade quase única de exercitar a sua criatividade, seja vestindo um casaco e amarrando outro na cintura, usando duas calças ao mesmo tempo, exibindo no pescoço dois cachecóis ou escondendo a bolsa a tiracolo por baixo do sobretudo. É uma coisa bonita de se ver. Quando a humanidade quer, ela sabe como se superar.

Pois bem. Certa ocasião, em uma das vezes em que viajei pela Ryanair, estava eu na fila de embarque, devidamente preparada para submeter-me ao jugo do controle de acesso à aeronave. Era a viagem de volta e é justamente nesse caso que ocorre um fenômeno conhecidíssimo: o inchamento da mala. Não se sabe se é porque a pessoa comprou algumas coisas na viagem ou se isso acontece devido ao fato de as roupas, antes dobradinhas e bem colocadas, agora ganharem mais volume por causa da displicência com que foram estocadas mala adentro.

O fato é que a minha malinha, embora tivesse as medidas adequadas para embarcar, estava um pouco barrigudinha, por assim dizer. Como ela é feita de material flexível, a sua profundidade havia aumentado e esse acréscimo era apreciável a olho nu.

Para evitar discussões, a Ryanair tem um gabarito de malas. Nada mais é do que uma espécie de caixa aramada, com as medidas máximas que uma mala pode ter para poder ser levada com seu dono na cabine, sem acréscimo no valor da passagem. O passageiro deve colocar a sua mala ali dentro e, se ela entrar, é porque está dentro dos limites de tamanho permitidos. Viva!!

A famigerada caixa gabarito! Imagem de independent.co.uk

Ao contrário, se não entrar, a sua mala deverá ser despachada e você deverá pagar a bagatela de 50 euros para levá-la. Ou, pelo menos, era isso. Considerando que as passagens dessa companhia costumam ser bem baratas, 50 euros mais na conta pode significar um incremento de mais de 100%. E se você está ali, voando com a Ryanair, é porque você quer pagar pouco.

Devo dizer, no entanto, que algumas vezes eles não fazem esse controle tão preciso. Se a mala é muito pequena mesmo, vão deixando passar e pronto. Ou, se trata-se de uma mochila, também costumam não fazer a exigência de obrigar a bendita a passar no gabarito. Já vi mochileiros passarem com mochilas do tamanho das minhas pernas sem precisarem ser submetidos à tal caixa aramada. Tudo bem, a altura das minhas pernas não é lá aquela coisa. Mas, para uma mochila, é sim.

O caso é que, naquele dia, a moça do controle parecia exigente. Ela estava mandando quase todo mundo verificar a mala no gabarito. E eu estava como? Nervosa com a minha mala barriguda do jeito que estava. Se eu percebia o estado da minha bagagem, imaginem a moça do controle!

Pois é. A moça estava implacável. E eu, suando frio. “Passaria ou não, no teste, a minha mala?” Suspense.

Foi quando me dei conta de que eu não ia morrer por causa daquilo. Ora, pipocas! Se minha mala não coubesse no gabarito, eu iria resolver a situação como tivesse que ser. Se tivesse que pagar um adicional para despachá-la, pagaria. Se tivesse que perder o voo, perderia. Depois passaria a semana seguinte a pão e água e pronto. Qual o problema? O que eu não podia era ficar envenenando meu organismo com estresse. E me tranquilizei.

Estando tranquila, comecei a pensar que a possibilidade de minha mala e eu passarmos e embarcarmos juntas no voo, seria provável. E, olhando para o avião, me imaginei, gloriosa, subindo as suas escadas ao lado da minha maleta.

A fila de controle estava longa e a hora de decolagem estava bem próxima. E a funcionária continuava pedindo, passageiro por passageiro, que verificassem suas bagagens. Ela pedia o passaporte, dava uma olhada e, depois, solicitava à pessoa que introduzisse a bagagem no gabarito. Estava quase chegando a minha vez.

Paris, Londres, Santiago de Compostela e Bruxelas.

O senhor que estava na minha frente entregou o passaporte à moça e ela o tomou. Logo, pediu que ele colocasse a mala dele na temível caixa aramada. A mala do cara era daquelas de material rígido. Ele a colocou no buraco mas ela não entrava. Oh meu Deus!

Enquanto isso, eu permanecia esperando a minha vez. Eu era a próxima.

O cara deu uma forçadinha, empurrando com mais atitude a mala dele para dentro. E ela, por fim, entrou! Vivaaaa!

A moça do controle, preocupada com o andamento da fila, pediu logo o meu passaporte, para adiantar. Ela olhou para mim, olhou a minha mala barriguda e fez cara de desprezo, como que pensando “Essa mala? Não cabe no gabarito de jeito nenhum, minha filha.” E eu, como se nada fosse, continuei de cabeça erguida, esperando.

E o cara que estava na minha frente? Eu disse que a mala dele entrou, não foi? Sim, mas era desejável que ela saísse também. Para ele poder embarcar com ela, né? Seria bom. Mas, não, queridos. Quando o cara foi retirar a mala do buraco, ela não saía! Sim, ela ficou emperrada lá dentro. Não saía de jeito nenhum. E eu esperando a minha vez de ser colocada à prova.

Enquanto o pobre homem fazia de tudo para tirar a mala dele de dentro do gabarito, a moça do controle me devolveu o passaporte e foi tentar ajudá-lo a resgatar a mala do buraco. Imaginem os dois fazendo força, colocando o pé na caixa para servir de apoio, fazendo das tripas coração para tirar a bendita dali de dentro. E nada!

E o tempo passando.

Foi quando, a moça, já aflita com aquilo tudo e vendo que a hora da decolagem chegaria em poucos minutos, voltou para o seu posto de trabalho, olhou para mim e fez um sinal de “pode passar”, me liberando de ter que colocar minha mala também no gabarito.

Iuuuuupiiiii! Eu mal podia conter minha alegria ao poder embarcar com minha mala, sem acréscimo nenhum e sem complicações, como tinha que ser!

Peguei minhas coisas, me ajeitei e, quando ia tomar o caminho em direção à saída para me dirigir ao avião, uma das outras pessoas que ainda estavam na fila conseguiu, finalmente, tirar a mala do cara do gabarito!

Final feliz para todos. Ufa!

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