O lado autoritário de um guia.

Belas mesquitas no centro histórico do Cairo.

Era a última noite do último dia de excursão pela cidade do Cairo. Em companhia do grupo, que se resumia a uma adorável família que vivia em Madri, eu havia passado quatro dias intensos, de cultura e conhecimento, e relaxantes, de conversas e gargalhadas.

Esses quatro dias no Cairo tinham sido a segunda parte da viagem, que começou com um cruzeiro pelo Nilo, com paradas nas cidades que haviam sido as principais no Antigo Egito. No cruzeiro, o nosso guia era outro, bastante diferente do guia da excursão em terra. Todas as pessoas são diferentes entre si, claro. Mas esse guia do Cairo chamou a minha atenção por diversos motivos, os quais contarei aos poucos.

Como tudo que começa tem um fim, lá estávamos nós, contentes que só, aproveitando as últimas horas do último dia, sempre em companhia do guia. Ele nos levou para jantar em um restaurante que tinha uma parte externa com mesinhas e cadeiras. A ideia era experimentar mais alguma comida típica dali. Pedimos arroz enrolado em folhas de parreira e, para complementar, um prato de frango com arroz e especiarias.

Eu disse que esse guia era peculiar, não? Pois bem. Desde o primeiro dia, ele não se fazia de rogado e fumava nas nossas caras sem pudor algum. Eu sei que, poucas décadas atrás, era assim também no Rio. Podia-se fumar tranquilamente em muitos lugares onde hoje é proibida a prática. Lembro-me que podia-se fumar dentro de shopping center, por exemplo. Dentro da barca Rio-Niterói, também. Em Barcelona, onde vivi em 2008-09, era permitido fumar dentro de bares e restaurantes, desde que o fumante não ficasse perto do balcão, onde tinha comida exposta. Ok. Muito inteligente. Estamos falando de fumaça. E fumaça se espalha, né?

Enfim. Esse tempo horroroso de fumantes jogando fumaça na minha cara contra a minha vontade tinha passado. Salvo em alguns lugares, o mais comum é o fumante se deleitar com seu cigarro longe de mim. Mas, no Cairo, em abril de 2014, esse guia me trouxe memórias desagradáveis dos idos dos anos 80 e 90. E, durante o jantar, não foi diferente. Cigarrinho entre os dedos e fumacinha nas nossas cabeças e comidas.

Deve ter algum fumante lendo este texto e pensando: “Nossa, que horror! Eu sou fumante mas jogo a fumaça para outro lado. Sou educado e me preocupo em não baforar para cima das pessoas que estão perto.” Querido, fumaça é gás. Como já vimos anteriormente, ela se espalha. Então não adianta fazer um biquinho para o outro lado e cuspir a fumaça. Esteja ciente. Embora fosse bem óbvio.

Pois bem, voltando ao jantar no Cairo, estávamos lá comendo e, de repente, o guia pega, com a mão, um dos bolinhos de arroz enrolado e me oferece. Fiquei chocada, já que não costumo ver esse tipo de atitude. Principalmente no Brasil, as pessoas têm muito cuidado em não tocar os alimentos com as mãos. Mas pensei: “Ah, não faz mal. Tenho anticorpos, se for o caso.” E comi o bolinho.

Minutos depois, enquanto eu saboreava o prato de frango com arroz, o fantástico guia tem a brilhante ideia de pegar um pão, esmigalhá-lo com suas próprias mãos e jogar todos os farelos no meu prato, pode?! “Assim fica mais gostoso”, disse ele, sorridente. O que eu fiz?! Agradeci, lógico.

Engoli em seco e comi aquela iguaria que agora tinha um toque pessoal do nosso guia aspirante a chef. Percebem que ele só queria agradar, não? E o que eu ia fazer? Fiquei sem graça e comi.

A centro histórico do Cairo é bastante agradável.

No dia seguinte, de manhã, estávamos todos nos preparando para ir ao aeroporto, na van da agência. Esse querido guia entregou, para cada um dos participantes, um questionário sobre os serviços da agência naquela excursão. Vocês devem estar pensando que eu mencionei algo sobre o cigarro ou as migalhas, né? Mas não. Achei chato, mas não ia colocar ali. Se quisesse reclamar, já o teria feito na hora, falando com ele.

O questionário era engraçado. Sim, porque, para cada aspecto que se pretendia avaliar, ele tinha múltiplas escolhas de respostas, as quais eram: “excelente”, “muito bom”, “bom” e “razoável”. Ou seja, a autoestima da agência estava lá em cima. A opção “ruim” não figurava em nenhuma das perguntas. Claro que eles deviam ser conscientes de que o serviço prestado era muito bom. Era mesmo, eu gostei muito. Mas sempre se deve deixar ao cliente a possibilidade de responder “ruim”.

Pois muito bem. Eu respondi o questionário e as minhas avaliações tinham sido todas “excelente”, menos em um item.

No item em que eu deveria avaliar o ônibus da excursão, eu marquei “muito bom”. Como tinha um espaço para sugestões, eu escrevi que o ônibus poderia ser maior e ter as janelas mais amplas, já que é um ônibus para fazer turismo.

Entreguei o questionário preenchido ao guia. Um tempo depois, me vem ele com o papel na mão, todo sério e me diz: “Você colocou ‘muito bom’ no item relativo ao ônibus. Isso vai prejudicar o motorista.” O quê? Eu não podia acreditar. O que tem a ver o tamanho do ônibus com o motorista? E ele ainda complementou: “Mude para ‘excelente’.”

Meninas e meninos, moças e rapazes, senhoras e senhores, eu não podia conceber que aquilo estivesse de fato acontecendo. Ele estava me ordenando que eu mudasse a minha avaliação? E olha que eu tinha marcado “muito bom”! Me senti praticamente um membro do júri de desfile de escola de samba que é xingado quando dá nota 9,9.

Eu disse a ele, então, que não mudaria porque era a minha avaliação, era uma boa nota e o motivo de eu não dar “excelente” nada tinha a ver com o motorista. Mas ele estava irredutível. E continuava: “Mude para excelente.”

Só eu estava na van. O restante do grupo, que também iria para o aeroporto, ainda não tinha descido do quarto do hotel. Vale lembrar que o tal motorista estava na van também. Ele estava de boas e, como não entendia espanhol, idioma no qual o guia e eu estávamos conversando, suspeito que ele não soubesse que estava sendo o pivô da discussão.

Por fim, eu disse: “Está bem. Vou mudar. Mas vou escrever aqui o motivo de eu ter mudado.”

“Não precisa explicar”, disse ele. “Ah, preciso sim!”, falei nervosa.

Peguei uma caneta, rasurei a minha opinião e escrevi, no papel, o que tinha acontecido. Pelo menos isso.

Quando as outras pessoas desceram e entraram na van, fomos para o aeroporto. Lá, tive uma boa notícia. O voo estava cheio e eu tinha conseguido um upgrade. Iupiii! Business Class, aí vou eu! Já dentro do avião, começo a me sentir mal do estômago. Uma dor horrível. Preferi não comer absolutamente nada, para não correr o risco de vomitar. Que desperdício de sorte!

Agora vocês vejam só. Passei toda a excursão pelo Egito maravilhosamente bem. Só no fim, o meu estômago se ressentiu. A pergunta que não queria calar era: Teriam sido os micróbios das mãos desse guia o motivo ou teria sido o seu autoritarismo? Até hoje não sei. Mas as duas respostas são plausíveis.

Vejam também:

:: o lado FASCINANTE do TEMPLO DE KARNAK ::

:: o lado GONÇALENSE do EGITO ::

:: o lado TRANSFORMISTA de HATSHEPSUT ::

:: o lado ATUAL do NILO ::

:: o lado MOVIMENTADO de ABU SIMBEL ::

:: o lado ENGARRAFADO do CAIRO ::

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